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Medo de mudar e os 7 inimigos da mudança

Temos tanto medo a mudanças, que muitos se agarram a mecanismos de defesa como o autoengano, a resignação, a arrogância, ou a preguiça para não questionar as crenças nas quais criamos nossa identidade.

 

 

Conta a lenda que um jovem rei em um império distante caiu um dia de seu cavalo e quebrou as duas pernas. Apesar de contar com os melhores médicos, nenhum conseguiu devolvê-lo os movimentos. Não restou outro remédio que caminhar com muletas. Devido à sua personalidade orgulhosa, mandou publicar um decreto obrigando todos os habitantes a usar muletas. Do dia para a noite, todo mundo começou a caminhar - contra sua vontade - com o apoio de dois paus de madeira. As poucas pessoas que se rebelaram foram presas e condenadas à morte. Desde então, as mães passaram a ensinar seus filhos a caminhar com a ajuda de muletas quando começavam a dar seus primeiros passos.

 

Uma vez que o rei teve uma vida muito longa, muitos habitantes desapareceram, levando consigo a lembrança do tempo em que se andava sobre as duas pernas. Anos mais tarde, quando o réu finalmente faleceu, os anciões que ainda viviam tentaram abandonar suas muletas, porém seus ossos, frágeis e fatigados, os impediram. Acompanhados de suas inseparáveis muletas, contavam aos mais jovens que anos atrás as pessoas caminhavam sem a necessidade de nenhum suporte. Entretanto, os pequenos riam deles.

 

Movido pela curiosidade, em certa ocasião um jovem tentou caminhar por si próprio, tal como os anciões haviam contado. Ao cair ao chão constantemente, logo se tornou piada em todo o reino. Entretanto, pouco a pouco foi fortalecendo suas pernas, ganhando agilidade e solidez, o que o permitiu dar vários passos seguidos.

 

Curiosamente, sua conduta começou a desagradar os demais habitantes. Ao vê-lo passear pela praça, as pessoas deixaram de falar com ele. E no dia que o jovem começou a correr e a saltar, ninguém duvidou, todos acreditavam que ele havia enlouquecido por completo... Naquele reino, onde todo mundo segue levando uma vida limitada caminhando com a ajuda de muletas, ao jovem chamam “o louco que caminhava sobre duas pernas”.

 

A INFLUÊNCIA DA SOCIEDADE

 

“Seja obediente. Estude. Trabalhe. Case. Tenha filhos. Veja TV. Peça empréstimo. Compre muitas coisas. É sobretudo, não questione jamais o que te disseram que tens que fazer.”
(George Carlin)

 

Não há quem culpar. Porém é certo que desde o dia em que nascemos somos doutrinados a nos tornarmos empregados submissos e consumidores vorazes, perpetuando o funcionamento insustentável do sistema. É assim que, ao entrar na idade adulta, seguimos a ampla avenida pela qual transita a maioria, esquecendo-nos por completo de seguirmos a nós mesmos, a nossa voz interior. Pelo caminhos nos desconectados de nossa verdadeira essência - de nossos valores e princípios mais profundos -, construindo uma personalidade adaptada ao que nosso entorno mais próximo espera de nós.

 

Apesar da sociedade e da tradição exercerem uma poderosa influência sobre cada um de nós, em última instância somos livres para tomar decisões com as quais construímos nosso próprio caminho na vida. É uma questão simples de assumir nossa parte da responsabilidade.

 

Entretanto, tomar as rédeas de nossa existência nos coloca frente ao nosso medo da liberdade. Logo, se achamos que nada muda é porque - em primeiro lugar - a maioria de nós resiste à mudança.

 

Prova disso é que tendemos a ridicularizar e inclusive nos opomos ferozmente a processos e ferramentas - como o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal - orientados a mudar nossa mentalidade. Além do mais, tal atitude implicaria dar o primeiro passo para uma direção assustadora: questionarmos a nós mesmos. Ou seja, ao sistema de crenças com o qual criamos nosso falso conceito de identidade.

 

OS SETE INIMIGOS DA MUDANÇA

“Somos parte de uma sociedade tão doente que aos que querem se curar chamam de raros e aos que estão sãos se tacha de loucos.”
(Jiddu Krishnamurti)

 

Ao obedecer às diretrizes determinadas pela maioria, fazemos todo o possível para não sairmos do caminho trilhado, rechaçando sistematicamente ideias novas, diferentes e desconhecidas. Não gostamos de mudar porque frequentemente o fizemos quando não havia outra alternativa. Por isso tendemos a associar mudança com frustração e vergonha que nos faz sentir que erramos. Ou pior ainda: que fracassamos. Disso vem as tão pronunciadas frases: “Eu sou assim e não mudo!”, “Os outros é que precisam mudar!”.

 

Tanto é assim que existem sete mecanismos de defesa cuja função é a de garantir a paralisação psicológica da sociedade. Em essência, representam as principais motivações subjacentes de todas aquelas desculpas que contamos a nós mesmos para não mudar. Estes mecanismos psíquicos nos levam a tomar decisões e a adotar atitudes e comportamentos que vão contra nosso bem estar. Ou, mais concretamente, contra a possibilidade real de promover mudanças construtivas em nossa maneira de ver, entender e disfrutar a vida.

 

O primeiro mecanismo de defesa é o medo. Sem duvida alguma, é o mais utilizado pelo status que como elemento de controle social. Quanto mais medo e insegurança experimentamos como indivíduos, mais desejamos que nos protejam o Estado e as instituições que o sustentam. Basta bombardear a população com notícias e mensagens com profunda carga negativa e pessimista. Sobretudo porque está comprovado que essas se instalam em algum obscuro lugar de nosso inconsciente, alimentando nosso instinto de sobrevivência. Além disso, quando vivemos com medo nos sentimos muito mais vulneráveis e ameaçados. E ao buscar todo tipo de seguranças e certezas, fechamos as portas de nossa mente e nosso coração ao novo e desconhecido.

 

“Ninguém é mais escravo que aquele que falsamente acredita ser livre.”
(Johann W. Goethe)

 

Uma vez que o maior inimigo da mudança é o medo, em seguida aparece em cena o autoengano. Isso é, mentimos a nós mesmos - obviamente sem nos darmos conta - para não ter que enfrentar os temores e inseguranças inerentes à qualquer processo de transformação. Para isso, olhamos constantemente para o outro lado, evitando pensar ou falar sobre aqueles assuntos que nos incomodam.

 

Por essa razão, o autoengano tende a dar lugar à adição/narcotização. E aqui depende dos gostos, preferências e adições de cada um. O certo é que a sociedade contemporânea promove infinitas formas de entretenimento que nos permitem ignorar nossos pensamentos, emoções e estados de humor 24 horas por dia. E assim procuramos sepultar nossa latente crise existencial. Visto que, em geral, fugimos permanentemente de nós mesmos, o mais comum é nos encontrarmos com pessoas que - assim como nós - não vão para lugar algum.

 

Com o tempo, esta falta de propósito e de sentido tende a gerar a aparição da resignação. Cansados fisicamente e esgotados mentalmente, decidimos nos conformar, sentenciando em nosso interior que “a vida que levamos é a única possível”. É então que assumimos definitivamente o papel de vítimas, frente a nossas circunstâncias e, consequentemente, frente à vida. Esta é a razão pela qual procuramos culpar aos outros e às circunstâncias por tudo aquilo que não gostamos em nós e em nossa vida.

 

“Nenhuma pessoa muda até que sua situação se torne insuportável.”
(José Antonio Marina)

 

Posto que o vitimismo se sustenta em um sistema de crenças errôneo e limitante, quando nos sentimos questionados tendemos a nos defender impulsivamente por meio da arrogância, muitas vezes disfarçada de ceticismo. É por isso que geralmente nos colocamos na defensiva frente àquelas pessoas que pensam de forma diferente de nós, e que insinuam que a mudança é possível. Ao nos mostrarmos soberbos, e inclusive prepotentes, o que tentamos é preservar nossa identidade rígida e estática, de maneira que não nos vejamos obrigados a mudar.

 

No caso em que seguimos postergando o inevitável, a arrogância tende a mutar e converter-se em cinismo. Sobretudo tal e qual se entende hoje em dia. Ou seja, como a máscara com a qual ocultamos nossas frustrações e desilusões, e sob a qual nos protegemos da insatisfação de levar uma vida de segunda mão, completamente pré-fabricada. Tal é a falsidade dos cínicos, que tendem afirmar que “não acreditam em nada”, manifestando que na verdade não acreditam em si mesmos.

 

Por último, existe um sétimo mecanismo de defesa: a preguiça. E aqui não nos referimos à definição atual, mas sim ao significado original que nos revela sua raiz etimológica. A palavra “preguiça” vem do grego acedia, que quer dizer “tristeza - melancolia - de quem não faz da sua vida aquilo que intui ou sabe que poderia fazer”. Não importa a idade. Nem o quão desoladoras ou adversas possam ser nossas condições atuais.

 

Estamos a um só pensamento de dar o primeiro passo. Ninguém disse que é um processo fácil. Porém para começar a viver nossa própria vida - e não a dos outros - a mudança é sem dúvida nosso melhor aliada.

 

Artigo publicado por Borja Vilaseca em El País Semanal dia 15/07/2012.

Fonte: Miedo al cambio por Borja Vilaseca, original disponível em http://borjavilaseca.com/miedo-al-cambio/

 

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