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FAMÍLIAS ATRAVÉS DO TEMPO: sobre o ciclo de vida das famílias

Famílias compartilham passado e futuro. Suas histórias e  expectativas englobam as relações de três a cinco gerações, unidas por laços de sangue, legais e/ou histórico-sociais. Tais relações passam por transições ao longo do tempo à medida que indivíduos e família se desenvolvem. Podemos nomear esse desenvolvimento como "ciclo de vida".

 

 São diversos os contextos em que famílias se desenvolvem, mas é fundamental estar atento às transições de estágios no ciclo de vida, pois são períodos que aumenta o estresse familiar. As tensões e conflitos tendem a surgir nesses períodos, pois exigem da família reequilibro, realinhamento e redefinição das suas relações.

 

Mônica McGoldrick, psicóloga de família, estudiosa renomada na área, apresenta seis diferentes estágios do ciclo de vida familiar e o que é necessário para a realização das tarefas em cada estágio. Ela ressalta que esse esquema é uma aproximação dos processos complexos do desenvolvimento familiar das famílias de classe média/alta. Não é um modelo "normal" fixo ou ordenado, uma vez que cada família avança no tempo a partir de sua história, complexa e única.

 

Os estágios do ciclo de vida das famílias, apontados por McGoldrick, são:

 

 

1. ENTRE FAMÍLIAS: INICIO DA IDADE ADULTA 

 

Esse é o período em que os jovens adultos precisam aprender a conciliar suas famílias de origem com a entrada no mundo adulto do trabalho e dos relacionamentos.  É o estágio de construir a si mesmo antes de se unir a outra pessoa. 

 

Requer uma separação da família de origem sem rompimentos ou afastamentos drásticos, num processo de amadurecimento emocional e financeiro. É o momento em que o indivíduo poderá escolher emocionalmente o que levará consigo da família, o que deixará para trás e o que irá criar por si mesmo.  

 

Cabe salientar que não significa necessariamente "sair de casa", uma vez que a situação econômica mundial tem atrasado cada vez mais a possibilidade de lançar-se sozinho no mundo. Significa lançar-se ao seu processo total de independência - emocional e financeira.

 

 

2. FORMAÇÃO DE CASAIS: A UNIÃO DAS FAMÍLIAS 

 

A formação do casal é mais do que a união de dois indivíduos. Representa a mudança de dois sistemas familiares inteiros, bem como a sobreposição deles, para o desenvolvimento de um terceiro sistema. 

 

É o momento de iniciar a vida a dois e planejar o que se espera do futuro juntos. O novo casal construirá seus valores e expectativas como casal, encarando o processo de amadurecimento pessoal mútuo, construindo espaço para intimidade e para integrar o que é importante para a relação. 

 

Para muitos, a formação do casal coincide com a primeira vez que se afastarão das famílias de origem territorialmente. Quando o primeiro estágio foi bem desenvolvido, tal separação afetará de forma menos intensa a relação do casal do que em situações onde o amadurecimento individual ainda não foi possível. 

 

 

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3. FAMÍLIAS COM FILHOS PEQUENOS

 

A entrada dos filhos no após a formação do casal faz da família algo permanente, pela primeira vez. O casal depois que tem filhos pode dissolver seu laço conjugal, mas nunca conseguirá dissolver seu laço paternal. 

 

Esse novo estágio requer que os adultos avancem uma geração e se tornem cuidadores da geração mais jovem. É o momento de redefinição de papéis, em que filhos se tornam pais e pais se tornam avós. Em que as gerações se aproximam na tarefa do cuidado e as redes de relações familiares se enriquecem. Cada membro da família constrói seu novo lugar e precisa aprender a respeitar os limites entre eles.

 

Além disso, para o casal ter de assumir responsabilidades e ocupar o papel de cuidador exigirá nova negociação na divisão das responsabilidades. Nesse período, os casais heterossexuais tendem a voltar-se para modelos mais tradicionais, em que as mulheres se sobrecarregam no cuidado e excluem os homens da participação, o que torna, por sua vez, mais difícil para eles aprenderem as habilidades parentais. O feminismo e as discussões de relação de gênero tem transformado esse cenário.

 

O casal precisa entender que ambos estão desenvolvendo suas habilidades parentais. E juntos vão redefinir valores e expectativas - agora voltados para a educação dos filhos. 

XLMS

 

4. FAMÍLIAS COM ADOLESCENTES

 

A adolescência marca uma nova transição de papéis na família. Os filhos adolescentes começam a explorar sua autonomia e a entrada no mundo adulto com suas responsabilidades. Aos pais cabe responder a essas mudanças cognitivas, físicas e emocionais aprendendo a dosar afeto e imposição de limites.

 

É o momento em que pais e filhos iniciam a redefinição de suas fronteiras, ensaiando o desenvolvimento do novo adulto. Pais se encontram frente ao desafio de estabelecer limites permeáveis - uma vez que os filhos adolescentes não aceitarão mais a autoridade completa sobre sua vida. Filhos começam a desenvolver sua identidade, explorar novos valores e ideais, trazendo questionamentos para dentro do sistema familiar que podem ampliar seu repertório ou gerar conflitos entre gerações. 

 

É importante que os pais saibam que sim, os filhos precisam de seu apoio emocional nesse momento e não só financeiro. Da mesma forma, os questionamentos dos filhos podem gerar desconfortos pessoais nos pais, instaurando um novo olhar para si durante um período de transição familiar.

 

 

5. FAMÍLIAS NA MEIA-IDADE: A SAÍDA DE CASA DOS FILHOS E O SEGUIR EM FRENTE

 

Fase mais longa do ciclo vital, pode gerar sentimentos diversos nos pais. Há alguns anos a saída dos filhos deixava o ninho vazio, provocando um sentimento de perda no casal. Hoje, estando cada vez mais difícil de iniciar a vida adulta (como falamos no ponto 1), o ninho tem ficado cheio e muitos pais aguardam com ansiedade a saída dos filhos de casa. 

 

Independente do sentimento, a saída dos filhos de casa provoca no casal a necessidade de reestruturar sua relação, já que as responsabilidades parentais não são mais necessárias. O casal se verá frente o desafio de viver novamente a dois e autorizar aos filhos um afastamento necessário para que eles possam entrar na vida adulta. 

 

Esse é também o estágio marcado por maior número de entradas e saídas no sistema familiar. Começa com a saída dos filhos e entrada de cônjuges e netos. Estágio em que o casal precisa lidar com a mudança de seu status de "pais" para "avós" e encarar sua ascensão geracional.

 

E é também o momento em que os ainda avós adoecem e morrem. Momento em que  o casal também encara mudanças no seu relacionamento com seus pais, que podem  tornar-se dependentes devido a questões de saúde vinculada ao processo de envelhecimento. 

 

 

6. A FAMÍLIA NO FIM DA VIDA

 

Esse estágio apresenta diversos estressores para as famílias e requer criatividade para encarar e acompanhar as mudanças, tais como a aposentadoria, a morte de pessoas próximas e a perda de independência.

 

As adaptações à aposentadoria exigem reorientação dos aposentados e pode gerar tensões nas relações familiares, que também vão precisar adaptar-se a esse processo. As crenças acerca do trabalho precisam ser ressignificadas e o que fazer com o tempo livre precisa ser negociado entre o casal.

 

Situações de morte de amigos e parentes também desorientam, pois torna concreto a proximidade com o fim da vida. A morte de um cônjuge é a adaptação mais difícil, pois exige de quem ficou viúvo encarar o término da vida a dois frente a morte. 

 

Além disso, o declínio da saúde, insegurança financeira e dependência são dificuldades comuns para quem valorizava a própria independência. Com o envelhecimento, doenças crônicas e incapacidades impõe desafios significativos à família frente ao cuidado de um adulto. Muitas pessoas entendem que esse é o momento de ser "pais de seus pais" e acabam por infantilizar os idosos. É preciso respeitar a hierarquia geracional, aceitando que os pais sempre serão pais de seus filhos e que podem ser exemplos para as gerações seguintes durante seus estágios do ciclo de vida.  

 

Esse é o estágio, portanto, que individualmente é preciso buscar um novo sentido para a vida em um novo status geracional. Como família é preciso ajudar o idoso nas mudanças necessárias para o seu conforto em casos de dependência, sendo fundamental o respeito pela dignidade da pessoa. 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Além desses estágios, é importante lembrar que famílias são diversas e plurais em seu desenvolvimento. Os estágios do ciclo de vida aqui apresentado muitas vezes são atravessados por outras configurações (como monoparentalidade, casais sem filhos, divórcio e recasamento, por exemplo), assim como por outros contextos (como vulnerabilidade social e enfrentamento de doenças crônicas e terminais fora do esperado, por exemplo).

 

Não podemos também ignorar o fato que cada indivíduo de uma família ampla se encontra em seu estágio do ciclo vital ao mesmo tempo que outros estarão em outro estágio. Além disso, a presente descrição não consegue expressar os efeitos consideráveis de cultura, etnia, religião e orientação sexual em todos os aspectos de como, quando é de que forma uma família vivencia várias fases e transições. 

 

O importante é que as famílias e cada pessoa possa entender um pouco mais do seu momento no ciclo de vida para olhar para o outro de forma mais inteira, diferenciada e empática.

Ficou curioso? Quer saber mais sobre o ciclo de vida das família?

Entre em contato ou escreva para psicologa@tatianaperez.com.br

 

Por Psicóloga Tatiana Perez

CRP 07/26032

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: McGoldrick, M. Shibusawa, T. O ciclo vital familiar. IN: Walsh, F. Processos normativos da família: diversidade e complexidade. Porto Alegre: Artmed, 2016.

 

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